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Categoria: Mundo Científico

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Evolução e Comportamento Animal – Palestra Prof. César Ades

Palestra do saudoso Professor César Ades, do Instituto de Psicologia da USP, intitulada “Evolução e Comportamento Animal”, realizada durante a comemoração do aniversário de Charles Darwin no Museu de Zoologia, ano de 2010.

Nesta palestra, Prof. César dá um apanhado geral sobre comportamento animal, sua relação com a evolução biológica, e comenta sobre alguns resultados de suas pesquisas e de seus alunos.

Algumas partes prévias e posteriores à palestra foram deixadas propositalmente, como um registro e recordação da imagem e palavras do Prof. César.

Realizada no dia 27 de fevereiro de 2010

Sobre a consciência animal

Em julho de 2012, um grupo de cientistas reunidos na Universidade de Cambridge proclamou que humanos não são os únicos seres conscientes. “Animais não-humanos como mamíferos e aves, e vários outros, incluindo o polvo, também possuem as faculdades neurológicas que geram consciência animal”, declarou o grupo, na chamada Declaração de Cambridge. Minha primeira reação foi de total incredulidade. Nós realmente precisávamos de um anúncio para definir algo tão óbvio?

Todo mundo sabe que os animais têm consciência. Eles percebem e entendem seu entorno. E muitos, entre eles golfinhos, elefantes e alguns pássaros, são inclusive auto-conscientes. Eles possuem um certo senso de si. Ok, pode ser que um cachorro não saiba quem é do mesmo jeito que eu e você sabemos quem somos. Mas o ponto é: mesmo que não saibam quem são, eles têm consciência de sua própria dor. Foi o que aconteceu comigo quando tive um acidente de bicicleta: bati a cabeça e tive amnésia. Quando o médico me perguntou como me sentia, eu disse: “Estou sentindo muita dor”. E quando ele perguntou quem eu era, respondi: “Não lembro meu nome.” Da mesma forma, é errado fazer um animal sofrer só porque ele pode não saber quem é.

Os pesquisadores descobriram mais do que isso. Sabemos, por exemplo, que ratos e galinhas sentem empatia. Eles conseguem se colocar no lugar dos bichos ao redor e sentem pena ao vê-los sofrer. Elefantes vivenciam alegria, luto e depressão. Lamentam a perda dos amigos, assim como os cães, chimpanzés e raposas vermelhas. Os polvos foram protegidos de pesquisas invasivas no Reino Unido bem antes dos chimpanzés, pois os cientistas já haviam reconhecido que eles são conscientes e sentem dor. Hoje muita gente ainda não quer admitir esses fatos científicos, pois terão de mudar a forma como tratam os animais. Na verdade, temos de tratar todos os animais da mesma forma, com compaixão e empatia – sejam eles os “animais humanos” como nós, sejam todas as outras espécies.

Não estou falando apenas dos abatedouros – embora seja óbvio que, se houvessem mais vegetarianos no mundo, menos animais sofreriam. Estima-se que 25 milhões de ratos, pássaros, peixes e outros animais sejam usados todo ano em experimentos de laboratório. Muitos passam por um sofrimento terrível durante os testes e a maioria sofre “eutanásia” – são mortos – depois. As pessoas justificam atitudes assim dizendo que vão ajudar os humanos. No entanto, mais de 90% das drogas que funcionam em animais não têm o mesmo efeito em nós. Menos de 10% delas nos ajudam de fato. Além disso, já existem formas de pesquisa que não maltratam os animais. Em lugar de gotejar xampu nos olhos de coelhos imobilizados, por exemplo, podemos usar modelos de computador para simular a ação do produto sem dano algum. Portanto, não se trata apenas de um desperdício de animais; é um desperdício de tempo e dinheiro que poderiam ser investidos em outras alternativas.

Por isso, concluí que devemos aplaudir a Declaração de Cambridge. Ela não traz nada de novo, mas mostra que cientistas famosos finalmente admitem que animais têm consciência. A declaração é mais uma prova de que devemos tratar os animais com todo o respeito. E reconhecer que eles não querem sentir dor, do mesmo jeito que nós não queremos. Seria perigoso fazer esse tipo de distinção. Todos os animais devem ser tratados como indivíduos. Ainda vai levar tempo para que isso aconteça. Mas a boa notícia é que cada vez mais pessoas aderem a essa ideia.

Por Marc Bekoff – professor de ecologia e biologia evolutiva na Universidade do Colorado, EUA. É autor de O Manifesto dos Animais, entre outros livros. Em depoimento a Eduardo Szklarz.

choros de bebês

O choro de um bebê transcende a espécie

Se uma mãe está fora fazendo compras e ela ouve uma jovem criança chorosa chamando “Mamãe!!”, ela imediatamente dará meia volta para ver de onde vem o som. Isto ocorre quase todas as vezes, mesmo que ela saiba que seu próprio filho está em casa ou na escola. Esta habilidade de reconhecer e responder ao “chamado de stress” dos filhos de outra pessoa não está limitada apenas aos seres humanos. Após perceber que a maioria dos bebês mamíferos tem choros que soam muito parecidos, Susan Lingle da Universidade de Wiinipeg elaborou um estudo e descobriu que veados selvagens no Canadá respondem ao choro de diversas espécies de mamíferos. Estes resultados foram publicados no periódico científico The American Naturalist.

Enquanto os cães têm sido conhecidos por responder ao choro de um bebê humano, não está claro se isto ocorre em decorrência de um atributo comum ao choro de todos os bebês mamíferos ou simplesmente por conta da familiaridade decorrente de milhares de anos de domesticação. Para remover qualquer chance da familiaridade estar afetando o estudo, Lingle e Tobias Riede da Midwestern University obtiveram gravações de choros de stress de filhotes mamíferos de espécies separadas por dezenas de milhões de anos de história evolutiva. As gravações foram tocadas para o veado selvagem através de alto-falantes e incluídos os choros de filhotes de focas, marmotas, gatos, morcegos e humanos.

Quanto os choros estavam dentro de uma faixa na qual veados fêmea estavam acostumadas a ouvir de sua própria prole, elas se demonstraram rápidas em tentar localizar o filhote da gravação, independentemente de qual espécie ele fosse. Se os chamados estivessem fora da faixa de frequência desejada, o choro chamaria a atenção da corça, mas ela não se moveria na direção do som. Se os pesquisadores ajustassem a frequência para recair dentro da faixa e não manipulassem a gravação de nenhuma outra forma, a corça responderia rapidamente e tentaria localizar o bebê.

Os pesquisadores também tocaram sons de veados adultos e predadores locais, incluindo coiotes, que não provocaram uma resposta. Adicionalmente, o veado não respondeu aos chamados de stress de aves canoras ou a chamados que estivessem dentro da faixa de frequência sonora desejada, mas sem a mesma estrutura encontrada nos choros naturais de filhotes mamíferos.

Ainda que haja diferenças em frequência e duração entre as espécies, há também características que têm sido evolutivamente conservadas.

Parece que, muito cedo na história dos mamíferos, as mães necessitaram proteger seus bebês e protegê-los rápido. Um tom que poderia ter causado a resposta mair rápida poderia ter sido altamente selecionado para tal, e poderia ter se tornado altamente conservado através da história. Os pesquisadores sugerem que isto seja um exemplo de sensibilidade inter-espécies que não esteja vinculada a empatia humana ou familiaridade. Isto pode significar que existam também outras áreas do comportamento e emoção sujeitas a transcender as espécies.