Início » Blog Comportamento Animal e Adestramento de Cães Ethos Animal » A importância de brincar com seu cão: uma abordagem científica

A importância de brincar com seu cão: uma abordagem científica

importancia-de-brincar-com-seu-cão-ethos-animal-comportamento-bem-estar-1024x683
A interação social durante a brincadeira é importante para o bem-estar dos cães. Foto: Google

 

Você dedica algum tempo para brincar com seu companheiro?

As causas pelas quais os animais brincam ainda são motivos de estudos sobre o comportamento animal e as possíveis consequências para seu bem estar. O brincar está amplamente distribuído nas espécies animais, e não só os animais domésticos executam essa curiosa atividade. As brincadeiras aparecem em espécies com habilidades motoras e cognitivas complexas, sendo mais frequentes durante o desenvolvimento juvenil.

Podemos definir esse comportamento como voluntário, repetitivo, ocorrendo em situações que não envolvam risco. Entretanto, essa condição incorre em custos energéticos, tempo, possível exposição a injúrias, doenças e predadores, sendo exatamente estes últimos aspectos que ressaltam a presente dúvida.

As brincadeiras podem servir para diferentes funções de acordo com a espécie, idade, meio ambiente, status social e reprodutivo do nosso animal. Para o cão devemos também considerar os aspectos relacionados à sua domesticação, que se originou de uma associação com mais de 10.000 anos.

Além das questões relacionadas à função desse comportamento, temos nos perguntado se há também benefícios sobre o bem estar do animal. Para tanto, vamos relacionar as principais teorias que tentam explicar as funções do brincar nessa espécie tão querida. Vamos a elas:

– desenvolvimento de habilidades motoras

Brincar pode servir como uma preparação para o comportamento social adulto, por exemplo: eles aprendem a controlar a pressão de sua mordida sem causar danos ao parceiro. Podemos considerar que este treinamento dá também condições para um desenvolvimento cerebral privilegiado. Outro ponto seria um possível período sensível para a realização deste comportamento – este tópico não tem sido estudado, apesar de que sabemos que a taxa de brincadeiras diminui com o passar do tempo.

– treinamento para o inesperado

Essa explicação considera que esse comportamento melhoraria as habilidades sensoriais e locomotoras requeridas no caso de um evento inesperado, logo somente espécies com capacidades cognitivas mais complexas podem apresentar essa atividade. E não podemos esquecer que as brincadeiras dos cães, especialmente com humanos envolvidos, diminuem os hormônios relacionados ao estresse.

– coesão social

Essa teoria sugere que esse comportamento fortalece as relações sociais aumentando as chances de sobrevivência e reprodução. É importante lembrar que o cão é uma espécie que vive em grupo, e os tipos de brincadeiras que os cães executam conosco refletem essa natureza. Eles são menos competitivos e possessivos com seus brinquedos, e mais interativos durante suas brincadeiras com humanos, preferindo brincar com uma pessoa conhecida.

– brincar como um subproduto de processos biológicos

Ao invés de possuir uma função única, esse comportamento pode ser uma espécie de subproduto de outros processos biológicos. Durante a domesticação podemos ter selecionado diretamente ou indiretamente a retenção de comportamentos juvenis para a vida adulta dessa espécie.

Implicações das brincadeiras para o bem estar animal

Vamos pensar inicialmente num animal brincando solitariamente (situação que pode ser comum na sua casa quando você sai para trabalhar). Esse comportamento pode melhorar as capacidades desse animal (físicas e cognitivas), portanto seu bem estar. Contudo, se lembrarmos que esse animal é uma espécie gregária, então o ato de brincar pode ser uma tentativa de lidar com um meio pouco estimulador. Esse comportamento pode servir, nessa condição, como uma válvula de escape, já que nessas condições de manutenção podemos observar uma limitação severa de espaço e também social, que pode culminar numa condição de estresse.

A perseguição da cauda, um exemplo comum, que o animal executa como uma forma de seu comportamento normal, quando juvenil, pode indicar uma condição de subestimulação que reduzirá seu bem estar, e que pode culminar com o desenvolvimento de comportamentos anormais repetitivos. Portanto, essa condição (brincar sozinho) proporciona ao animal uma oportunidade para enriquecer um meio com pouca estimulação, e se ocorre em altas taxas pode indicar um prejuízo nas condições de seu bem estar. Logo, entreter seu cão, brincando com ele diretamente, e não deixá-lo brincar sozinho é uma forma de melhorar seu bem estar.

Portanto, é fundamental que você se envolva em atividades com seu cão, não pense que deixando brinquedos para ele utilizar sozinho seja uma estratégia adequada para melhorar seu bem estar. Com certeza é você o parceiro para brincadeiras que seu cão deseja.

 

Mais informações:
Why dogs play? Function and welfare implications of play in the domestic dog.
Applied Animal Behaviour Science 197: 1-8, 2017.

 

gelson-02-300x300Gelson Genaro
Médico veterinário formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Jaboticabal (SP), com mestrado e doutorado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP em Fisiologia. Professor da disciplina Bem Estar Animal, no Centro Universitário Barão de Mauá, de Ribeirão Preto (SP)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *