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Autor: Camila Pareja

Graduada em enfermagem e apaixonada por comportamento animal, durante a graduação realizou pesquisas sobre Terapia Assistida por Animais. Começou a estudar comportamento quando comprou um lindo Pastor Alemão com perfil de cão de trabalho, iniciou seus estudos formais em adestramento em 2014. Pretende especializar-se em cães de trabalho acompanhantes para pessoas com necessidades especiais.

Cães idosos podem aprender?

Quem não conhece o antigo ditado popular “não se ensina truque novo a um cachorro velho”, mas será verdade? Sabemos que  população canina está envelhecendo e assim como os humanos, os Pets também estão com a expectativa de vida maior e as dificuldades de um animal idoso são bem parecidas com as dificuldades de humanos idosos. Com passar do tempo articulações vão dando seus primeiros sinais de desgaste, pode ocorrer incontinência urinária, os dentes ficam mais sensíveis, pesquisas científicas indicam que os peludinhos podem até sofrer de doenças como Alzheimer.

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Golden idoso. Fonte Flickr de normanack

 

Mas dizer que um cachorro idoso não poderia aprender é um pouco equivocado, o processo de envelhecimento não limita o aprendizado em si, o que acontece normalmente é um declínio de algumas atividades motoras e fisiológicas que na maioria das vezes não interferem na inteligência nem na capacidade de resolver problemas, salvo claro quando o animal possuir alguma doença degenerativa. Os cães idosos necessitam de treinos diferenciados, que respeitem suas limitações, mas são plenamente capazes de aprender coisas novas.

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Buldogue idoso, disponível em flickr de Michelle Tribe

Na verdade, o adestramento pode muitas vezes melhorar a qualidade de vida de um peludo velhinho, por exemplo, um cão idoso que sofre de incontinência urinária pode aprender a fazer xixi sob comando, e assim diminuir assaduras decorrentes do uso de fraldas. O exercício controlado também pode ser benéfico para evitar que músculos fiquem atrofiados. O importante é sempre ter um bom acompanhamento com veterinários de preferência especializados em cães idosos. Esses profissionais já estão disponíveis no mercado, e também podem contribuir para melhorar a qualidade de vida desses animais, realizando exames preventivos para diagnosticar doenças cardíacas, diabetes, entre outras que são mais comuns em animais idosos. O veterinário também pode indicar uma ração Sênior, que além de possuir componentes que ajudam na manutenção das articulações facilita a mastigação por possuir grãos menores, tendo em vista o desgaste natural dos dentes.

Muitos animais idosos acabam em abrigos, e as chances de adoção são bem menores. Normalmente isso ocorre porque a população acredita ser mais fácil ensinar um filhote ou um cão jovem. Entretanto, dependendo da dinâmica dos futuros tutores pode ser uma boa opção, a adotar um idoso, pois ele não vai ter tanta energia para gastar quanto um filhote, os adotantes não terão problemas com a troca de dentes, etc. De qualquer forma é bom ressaltar que educar exige paciência independente da idade e espécie a ser educada. Animais de porte grande tendem a envelhecer mais rápido e ficarem um pouco mais sedentários que os de porte pequeno, mas a devoção dos peludos mais velhos com certeza será a mesma de um filhote.

novo filhote de cachorro em casa dicas de treinamento e educação canina

Meu Deus, um filhote em casa! O que devo fazer?

Essa é uma pergunta recorrente entre proprietários de animais, especialmente os marinheiros de primeira viagem. Quais cuidados para chegada do filhote em casa? Quando iniciar o adestramento?

A chegada do novo membro da família normalmente é marcada pela felicidade e empolgação, e não é para menos, filhotes possuem aqueles olhos amendoados e um corpo ainda desajeitado que fazem até o coração mais duro amolecer. E, de fato, muitos tutores acabam por achar engraçado e fofo todas as peripécias de um lindo filhotinho. Entretanto com o passar dos dias surgem os primeiros problemas que podem ser desde a escolha de um local correto para fazer as necessidades, destruição de objetos ou até mesmo noites em claro por conta do choro do peludinho.

Todo esse processo exige planejamento, caso contrário os problemas podem  se agravar ao longo do tempo.

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Ninhada de labradores, fonte: Flickr de Lisa L Wiedmeier

Primeiro passo

A escolha do filhote? Sim! Existem perfis de cães para cada tipo de família e essa escolha vai ser fundamental para o bom desenvolvimento da relação; isso se aplica também a outros animais como gatos, aves, roedores, etc. Hoje em dia existem profissionais sérios que podem auxiliar com consultorias e prevenir problemas desde a raiz.

Ao se optar por cães de raça, é fundamental saber a procedência dos filhotes:  visitar as instalações do canil, questionar sobre conhecer os pais, evitar feiras de animais ou locais em que não seja possível identificar a seriedade dos criadores. Canis sérios realizam poucas crias durante a vida fértil de cada matriz, buscam melhorias genéticas em prol da saúde do animal, possuem instalações limpas, protegidas contra o tempo e com funcionários motivados e carinhosos. Lembre-se  o pedigree não garante que o animal esteja livre de doenças genéticas,  muito menos evita que os criadores cruzem animais doentes, perpetuando tais doenças.  Alguns oferecem garantia contra determinadas doenças, como displasia, catarata congênita, entre outras. Mesmo assim, isso não é uma ciência exata, há riscos e o custo de um animal dessa procedência é alto.

Outra opção – inclusive muito nobre – é a de adotar um peludinho sem raça definida em um centro de resgate. Existem testes de avaliação de perfil que podem ajudar a escolher o animal de acordo com a personalidade, por exemplo, se será mais ativo ou calmo, entre outras características importantes para compatibilidade da família adotante.

A idade correta também é fundamental, o filhote não pode ser separado da mãe e irmãos antes de completar dois meses de vida, e de preferência já deve possuir a primeira dose de vacina V8 ou V10.

Segundo passo

Planejamento do ambiente. Os primeiros dias do filhote na casa nova são complicados para ele, entretanto se o ambiente estiver adequado os problemas serão minimizados e a adaptação será mais fácil.

Providencie a mesma ração que o criador estava oferecendo diminuindo o número de mudanças ao mesmo tempo, leve um fragmento do tecido que o acomodava no canil para que ele se sinta familiarizado nas primeiras noites, determine o lugar que o cão deve comer e fazer suas necessidades, lembrando que estes lugares devem ser distantes entre si, respeitando o instinto natural que os animais possuem, use portões móveis e cercas para garantir a segurança e impedir acidentes com objetos valiosos, evite improvisar obstáculos impróprios já que podem ferir o filhote ou conter componentes químicos nocivos.

A chegada

Caso você possua outros animais, mantenha-os isolados enquanto apresenta a casa ao novo membro da família: deixe-o cheirar, fazer suas necessidades em um local adequado, (como gramado, jardim, sacada).

Permita que descanse  em um ambiente confortável sem muitos estímulos, já que a viagem e a mudança são estressantes. Só então apresente-o a crianças e outros animais, tendo sempre cuidado, pois cães adultos podem não tolerar todas brincadeiras de filhotes, assim como gatos e outros animais.

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Filhote com gato, fonte: Flikcr de Sindre Sorhus

Abaixar ao chegar perto do filhote pode ajuda-lo a sentir-se mais confiante, e esse também é um bom momento para oferecer uma guloseima.

Ensinar o filhote a ficar sozinho também será necessário e pode prevenir muitos problemas.

Brinque com o filhote para que gaste energia e depois lhe ofereça um local adequado para dormir, mas que permita o acesso aos donos caso acorde. Assim, ele vai perceber que pode dormir tranquilamente naquele local e encontrar os tutores quando acordar. Aos poucos aumente o tempo que ele fica sozinho e deste modo você estará ensinando o filhote a passar um tempo sem companhia. Gradualmente você pode evoluir isso para deixá-lo por períodos curtos em determinados cômodos da casa.

Fornecer brinquedos para roer também é uma boa saída para evitar transtornos, mesmo assim tenha ciência de que algum objeto pode ser roído eventualmente, mas o importante é afastar os potenciais riscos e objetos perigosos.

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Filhotinho e seu brinquedo de roer, fonte: Flickr de Bukowsky18

Nunca reprima um filhote ao pegá-lo fazendo xixi no tapete: isso o fará ter medo de fazê-lo na sua frente, mas não vai ensinar o local correto de fazer. Uma boa dica é retirar acesso nos primeiros dias a lugares permeáveis como tapetes e estofados, pois eles adoram fazer as necessidades em locais assim, ofereça tapetes higiênicos ou jornais em vários pontos, para facilitar o acerto e lhe dar opções. Caso o veja escolhendo adequadamente o local do xixi, elogie muito o peludinho, vale até oferecer um petisco.

Consistência nas regras vai prevenir problemas

A questão é que se você mostra o caminho certo para seu cão dificilmente terá problemas futuros, mas como realizar tais feitos? Parece simples, mas não é. Cães não conseguem abstrair quando podem ou não subir em um sofá, ou entrar em cômodos da casa. É natural, por exemplo, o filhote ainda delicado pular sobre as pessoas quando quer chamar atenção e receber carinho, afinal para ele isso é adequado no mundo canino; todavia a maioria dos humanos não aprecia esse comportamento em um cão adulto gigante com patas de quem acabou de cavar o jardim, e quando o cachorro cresce começa a levar broncas pelos mesmos comportamentos que nutriu desde filhote. Tais broncas são pouco eficientes porque para o cachorro o simples de  fato de receber a bronca é uma forma de atenção, que é o que ele deseja. Assim, desde os primeiros dias as regras devem ser impostas sempre e sem exceção. Esse exemplo deve ser seguido por todos os membros da família e com todas as regras que os tutores decidirem como adequadas à convivência.

Todo animal precisa de amor incondicional, isso siginifica que seu filhotinho tem que ser amado independente do que faça. Em redes sociais vemos muitos vídeos engraçados de cães que parecem arrependidos por terem aprontado alguma coisa, mas na verdade estão apenas com medo porque sentem que seus tutores estão bravos, então mostram submissão. Portanto nada de broncas se não for no ato da travessura, a maior prova de amor incondicional é perceber que sim, as vezes eles destroem nosso jardim, comem o pé da mesa, mas o que seria de nossa vida sem eles?

Fica claro que a educação do filhote deve ser iniciada logo na sua chegada, o adestramento pode ter início também logo após os primeiros meses quando o filhote já estiver ambientado ao local, de preferência com todo esquema de vacinação completo.

Pode-se começar com sessões de curta duração tendo em vista que a capacidade concentração de filhotes é menor, mas isso não impede de ensiná-los, por exemplo, comandos básicos: “senta”, “deita” e “vem”; aos  poucos o adestramento deve ir aumentando de complexidade.

Apesar desses conselhos não existe uma receita única, e um profissional capacitado saberá adaptar e planejar cada passo para que o adestramento seja o mais harmonioso possível, em um momento tão importante onde nasce um tutor e um tutelado.